Neste fim de semana atípico de inverno, chuvoso e úmido, me aqueci com as leituras fáceis dos hits contemporâneos, sempre longe da funky TV. Por vezes, meio dormindo acordado pós-almoço do domingo, olhos semicerrados a observar gotas intermitentes desse choro de chuva infindável, as lembranças do meu último fim de semana em Toc Toc, me acalentaram com um pouco de cor na memória a esse domingo tão cinza. Neste ano, estive em Toc Toc, da última vez, num fim de semana pré-feriado. Larguei tudo por um momento de paz, de esquecimento. Saímos de São Paulo às duas da tarde de uma sexta-feira. Peguei a chave da casinha da Sandrinha, na Lapa, às três. Finalmente partimos. Uma hora para cruzar a marginal do Tietê e chegar a Ayrton Senna. Estava ansioso para chegar antes das cinco e meia para ver o singular por do sol em Toc Toc. A Gina dizia para eu relaxar, pois não importava quando chegaríamos. Ela estava certa, mas eu queria muito mesmo lá estar antes da noite. Chegamos, porém, cerca de seis e meia. Noite.
Passamos um fim de semana maravilhoso, sem TV, rádio, DVD, games, etc. Um fim de semana memorável em família, pleno de felicidade serena.
Só nós mesmos, como companhia e passa tempo. O tempo estava esplendido. Céu azul levemente enevoado. Sol ameno. Mar de almirante.
No sábado, após uma longa manhã de praia, de almoço e soneca, acordei às cinco da tarde. A casinha caiçara em que ficamos não é pé na areia, mas quase, do outro lado da rua. Realmente a poucos metros, muito próximo da praia, de maneira que quando dormimos o rugir ritmado das ondas nos segue por toda a noite.
Cortei caminho pelo quintal da casa de frente, onde mora um casal de pescadores, velhos amigos. Entrei na cozinha deles (tenho total liberdade por lá) tomei um gole de café requentado num copo americano e fui à praia. Sentei na espreguiçadeira para assistir a performance em “real time” do maior artista plástico do mundo: “o rei Sol”. A "tela" do ocaso em Toc Toc é privilegiada. A praia é invertida de modo que o sol se põe no mar e não no continente, como se estivéssemos na costa do pacifico e não na do Atlântico, olhando para o oriente.
Nessa época do ano já outonal, em que a curva solar é mais setentrional, não vemos a bola de fogo mergulhar nas águas em cobre. O sol "tramonta", como se diz na Itália, mais a direita da praia onde há montanhas, quase istmos cobertos por mata atlântica. Ainda assim, à medida que sol se infiltrava na silhueta negra do morro, as nuvens se tingiam mais e mais de carmim. Na linha d'água, entre ar e mar, as listras horizontais de nuvens, lilás por baixo e vermelho brasa por cima, cortavam a tela de canto a canto, por toda a praia. O mar era de um cobre bem avermelhado, não liso, mas enrugado pelas pequenas marolas que formavam sombras de um azul quase cinza, a modelar esse tapete de águas, num relevo rugoso de pontas angulosas, como se essa couraça dourada escura, fosse cheia de pontas, um ouriço metálico.
Quanto mais o sol se escondia, mais diversas eram as camadas de nuvens stratus formando diversas listras paralelas sem fim, cada qual num tom dramático de vermelho e azul profundo, mas em diferentes matizes. As luzes das casas cintilavam nas marolas, adicionando pontos de brilhos espelhados sobre o cobre e suas sombras, agora já negras.
Meus filhos brincavam contra as ondas, esquálidos e negros contra a luz agonizante. Pareciam nativos africanos, envernizados cada vez que as ondas passavam por eles. Eu me esqueci de mim mesmo. Do meu ego. De quem sou. Tornei-me parte da paisagem. Insignificante diante da sua magnificência.
Fui infinitamente feliz, por um dia. Por um momento, valeu muito mais do que muitos outros estar "simplismente" vivo.

5 comentários:
"Renda-se, como eu me rendi. Mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei. Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento." (Clarice Lispector)
Pois é, meu amigo! O por do sol de Toque Toque e a magia desta casa, de unir tantas pessoas especiais em torno deles ninguém consegue explicar, mas também ninguém consegue ceifar.
A casa e a praia, tudo muito simples, nos propiciam esses momentos mágicos, verdadeiramente felizes, que a gente carrega na alma, como uma marca que nos une.
Adorei sua crônica, especialmente porque a temática é a que mais me interessa. Um por-de-sol ímpar, em Toque-toque.
Beijo grande e obrigada por mais essa
Adorei seu blog..ele é de grande sensibilidade.
Parabéns...sempre que puder vou dar um oi aqui..bjs
Que capacidade expressiva!! Que textos fluidos e ao mesmo tempo profundos.
Gostei muito do seu blog e de suas reflexões. Parabéns! Continue nos brindando com suas palavras.
bjs
Soraya
Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas..
Que já têm a forma do nosso corpo..
E esquecer nossos caminhos que nos levam sempre aos
mesmos lugares..
É o tempo da travessia...
E se não ousarmos fazê-la..
Teremos ficado...para sempre..
À margem de nós mesmos..
(Fernando Pessoa.)
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